A taxa de serviço arrecadada nunca é 10% do faturamento, e é essa diferença que faz a equipe achar que está sendo passada para trás. Quem fecha o mês somando o faturamento e multiplicando por 0,10 chega a um número que não existe no caixa, e depois precisa explicar a falta.
O rateio da taxa de 10% é uma conta de três andares: quanto entrou de verdade, quanto pode ser retido, e como o líquido se divide entre gente que trabalhou dias diferentes em funções diferentes.
Se a sua casa fecha esse rateio na mão todo mês e discute o resultado com a equipe, a gente monta uma planilha personalizada para o rateio da taxa de serviço, com as funções e os pontos que vocês combinaram.
Primeiro andar: quanto entrou
Um mês de um restaurante de 90 lugares:
| Linha | Valor |
|---|---|
| Faturamento em consumo | R$ 314.800,00 |
| Taxa se todas as mesas pagassem 10% | R$ 31.480,00 |
| Taxa efetivamente lançada e paga | R$ 26.940,00 |
| Taxa que o cliente pediu para retirar | R$ 4.540,00 |
A taxa efetiva foi 8,6% do consumo, não 10%. Isso é normal e acontece toda semana, porque a taxa é facultativa. O que não é normal é a equipe descobrir isso só no dia do pagamento.
Registrar o valor retirado por mesa, com data e responsável pelo atendimento, muda a conversa. Quando 14% da taxa some no mês, o dono precisa saber se é o cliente que não quer pagar ou se é o garçom que oferece a retirada para fechar a conta mais rápido.
Cartão pede um detalhe a mais. A taxa da maquininha incide sobre o total da conta, taxa de serviço incluída, e cai junto com o repasse. A planilha precisa saber quanto da taxa arrecadada ainda está a receber da adquirente, do contrário o rateio distribui em dinheiro do dia 5 uma taxa que só entra no caixa no dia 32. É o mesmo cuidado com prazo que aparece no fechamento de caixa do dia.
Segundo andar: quanto pode ser retido
A Lei 13.419/2017 permite que a empresa retenha parte da taxa para cobrir os encargos que incidem sobre o repasse. O limite muda conforme o regime: até 20% para empresas inscritas no Simples Nacional e até 33% para as demais. O percentual usado precisa estar em acordo coletivo ou combinado com a equipe, e a retenção não pode virar receita da casa. Confirme com o seu contador antes de fixar o número, porque o enquadramento muda o teto.
No exemplo, retenção de 20% sobre R$ 26.940,00:
| Linha | Valor |
|---|---|
| Taxa arrecadada | R$ 26.940,00 |
| Retenção de encargos, 20% | R$ 5.388,00 |
| Líquido a distribuir | R$ 21.552,00 |
Esse é o número que vai para o rateio. Todo cálculo feito sobre os R$ 26.940,00 vai gerar promessa que a folha não cumpre.
Terceiro andar: como dividir
Três formas circulam nos restaurantes, e elas produzem resultados muito diferentes para a mesma pessoa.
| Forma de dividir | O que premia | Onde quebra |
|---|---|---|
| Partes iguais entre todos | Simplicidade | Garçom de 24 dias recebe igual ao de 9 dias |
| Só para quem atende a mesa | O contato com o cliente | Cozinha e copa fora, e a taxa é da casa inteira |
| Pontos por função, ajustados por presença | Responsabilidade e dias trabalhados | Exige registro diário de escala |
A terceira é a que resiste à discussão, porque cada pessoa consegue refazer a própria conta. As duas primeiras dependem de o time aceitar a palavra do gerente.
A tabela de pontos
Os pontos são um acordo, não uma fórmula do mercado. Um desenho comum:
| Função | Pontos por pessoa | Pessoas | Pontos |
|---|---|---|---|
| Maître | 12 | 1 | 12 |
| Garçom | 10 | 6 | 60 |
| Barman | 8 | 2 | 16 |
| Cozinha | 6 | 5 | 30 |
| Copa e apoio | 4 | 3 | 12 |
| Total | 130 |
Com 130 pontos cheios e R$ 21.552,00 para dividir, o ponto vale R$ 165,78. Um garçom levaria R$ 1.657,80 e a copa R$ 663,12.
A presença muda tudo
Ninguém trabalha o mês inteiro. Férias, folga extra, atestado, entrada no meio do mês. O ponto de cada pessoa vira o ponto da função multiplicado pelos dias trabalhados sobre os dias de operação.
Um garçom que trabalhou 18 dos 24 dias de operação não tem 10 pontos, tem 7,5. Refeito o cálculo com a escala real do mês, o total cai de 130 para 118,4 pontos, e o ponto sobe de R$ 165,78 para R$ 182,03.
Esse é o detalhe que mais gera briga. Quem trabalhou o mês inteiro ganha mais quando o colega falta, e é isso que faz o rateio parecer justo para quem está sempre lá. Sem a coluna de dias trabalhados, a planilha entrega o oposto: quem faltou dilui o bolo de quem ficou.
O contracheque precisa bater com o rateio
O valor rateado entra na folha com natureza própria e aparece separado do salário. Se a planilha do rateio e a folha usam números diferentes, a equipe confia na planilha e a empresa paga a folha, e a diferença vira reclamação.
Um jeito de fechar isso é a planilha do rateio gerar a lista final por matrícula, na mesma ordem em que a folha é lançada, com o valor já arredondado do jeito que o cálculo da folha arredonda. Vale o mesmo raciocínio que se usa para registrar vale e desconto em folha: o que a pessoa recebe tem que ter origem visível em uma linha.
O que registrar por dia
Cinco campos sustentam o mês inteiro:
- Data e valor do consumo do dia
- Taxa lançada e taxa retirada, em colunas separadas
- Forma de recebimento, para separar o que já entrou do que está em prazo de cartão
- Escala do dia, com quem trabalhou e em qual função
- Ocorrência de troca de função, quando o barman cobre o salão
O quinto parece detalhe e resolve o caso mais chato do mês. Sem ele, quem cobriu duas semanas em outra função recebe pela função do cadastro, descobre no pagamento e a conversa acontece na frente do salão cheio.
A discussão sobre quem recebe mais tem a mesma raiz da discussão de comissão sobre lucro em vez de faturamento: o número precisa ser reproduzível por quem recebe, senão vira desconfiança permanente.
Perguntas frequentes
A taxa de 10% é obrigatória para o cliente?
Não. A taxa de serviço é facultativa e o cliente pode pedir a retirada. Por isso o valor arrecadado fica abaixo de 10% do consumo. Num mês de R$ 314.800,00 em consumo, uma casa pode arrecadar R$ 26.940,00 em taxa, o equivalente a 8,6%. Calcular o rateio sobre 10% cheios cria uma promessa de R$ 4.540,00 que não existe no caixa.
Quanto a empresa pode reter da taxa de serviço?
A Lei 13.419/2017 permite reter o necessário para cobrir os encargos sobre o repasse, com limite de até 20% para inscritas no Simples Nacional e até 33% para as demais. Sobre R$ 26.940,00 arrecadados, uma retenção de 20% deixa R$ 21.552,00 para dividir. O percentual precisa estar acordado com a equipe e confirmado com o contador.
Como dividir a taxa entre salão e cozinha?
Por pontos definidos em acordo com a equipe, e não por atendimento à mesa. Um desenho comum dá 10 pontos ao garçom, 8 ao barman, 6 à cozinha e 4 à copa. Com 130 pontos e R$ 21.552,00 líquidos, o ponto vale R$ 165,78. O que sustenta o acordo é ele estar escrito antes do mês começar.
Quem faltou deve receber a mesma coisa?
Não, se o critério for por presença. O ponto da função é multiplicado pelos dias trabalhados sobre os dias de operação: um garçom com 18 de 24 dias tem 7,5 pontos em vez de 10. No exemplo, o total de pontos cai de 130 para 118,4 e o ponto sobe para R$ 182,03, o que beneficia quem esteve na escala inteira.
Leia também
- Como fazer o fechamento de caixa do dia
- Como registrar vale e desconto em folha
- Como calcular comissão sobre lucro, não sobre venda
Comece pelo mês que está correndo
Não volte para trás. A partir de hoje, registre por dia o consumo, a taxa lançada, a taxa retirada e a escala. No fim do mês você fecha o primeiro rateio com dado real e a equipe consegue conferir linha por linha.
No segundo mês aparece a média do ponto, que é o número que a equipe passa a acompanhar. No terceiro, a série de taxa retirada por dia da semana, que costuma mostrar padrão de horário e de mesa.
A gente monta essa planilha com as suas funções, a sua tabela de pontos, o seu percentual de retenção e a lista final pronta para a folha.
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Planilha sob medida para rateio de taxa de serviço em restaurante
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