A soma dos hidrômetros dos apartamentos nunca dá o número do hidrômetro geral, e a diferença precisa de uma regra escrita antes de virar cobrança. Sem essa regra, o síndico divide a sobra do jeito que der naquele mês, e cada assembleia reabre a discussão do zero.
Medição individualizada não acaba com o rateio. Ela troca um rateio único por dois: o que cada unidade gastou de verdade, e o que ninguém gastou sozinho e todo mundo paga junto.
Se o seu condomínio já tem os hidrômetros instalados e trava na hora de fechar a conta, a gente monta uma planilha sob medida para o rateio de água, com o critério da sua convenção dentro da fórmula.
A conta que não fecha, em números
Um prédio de 48 unidades, um mês qualquer:
| Origem do número | Volume | Valor |
|---|---|---|
| Fatura da concessionária, hidrômetro geral | 1.240 m³ | R$ 12.648,00 |
| Soma dos 48 hidrômetros das unidades | 1.086 m³ | R$ 11.077,20 |
| Hidrômetro da área comum | 62 m³ | R$ 632,40 |
| Diferença sem dono | 92 m³ | R$ 938,40 |
Os 92 m³ são 7,4% da conta. Em doze meses, R$ 11.260,80, mais do que o condomínio gasta com a manutenção do elevador no ano.
O valor do m³ aqui saiu da divisão da fatura pelo volume faturado, R$ 10,20. Não é o preço da tabela da concessionária, porque a tarifa costuma ser cobrada por faixa de consumo. Quem monta o rateio pela tabela em vez da fatura sempre fecha com sobra ou falta de alguns reais, e passa o mês procurando erro de fórmula onde não tem.
De onde vem a diferença
Quatro causas respondem por quase toda a sobra, e cada uma pede uma decisão diferente.
Área comum sem medidor próprio. Rega de jardim, lavagem de garagem, torneira do salão de festas. Se não tem hidrômetro, o consumo entra na diferença e some.
Vazamento na prumada. Cano entre o medidor geral e os individuais. Não passa por hidrômetro nenhum. Uma diferença que sobe de 4% para 11% e fica lá é vazamento, não é comportamento de morador.
Hidrômetro parado ou lento. Medidor de unidade que registra menos do que passa. Aparece como diferença coletiva, e quem paga é o vizinho.
Data de leitura diferente da concessionária. O condomínio lê no dia 25 e a concessionária fatura o período do dia 12 ao dia 11. São dois intervalos diferentes comparados como se fossem o mesmo. Esse é o mais comum, e o único que não é perda: é erro de janela.
Três critérios para dividir a sobra
O critério tem que estar na convenção ou em ata de assembleia. Estes são os três usados na prática, aplicados aos mesmos R$ 938,40 do exemplo, para duas unidades: a A, que consumiu 45 m³ e tem 2,6% de fração ideal, e a B, que consumiu 8 m³ e tem 1,7%.
| Critério | Unidade A paga | Unidade B paga | Quando faz sentido |
|---|---|---|---|
| Partes iguais entre as 48 unidades | R$ 19,55 | R$ 19,55 | Prédio com unidades do mesmo tamanho |
| Proporcional ao consumo medido | R$ 38,88 | R$ 6,91 | Quando a suspeita é vazamento interno nas unidades |
| Proporcional à fração ideal | R$ 24,40 | R$ 15,95 | Alinha o rateio da água com o resto da cota |
Repare na unidade B. Entre o primeiro e o segundo critério, a diferença é de R$ 12,64 no mês. Parece pouco. Para o morador aposentado que mora sozinho e reduziu o banho para pagar menos, é a prova de que economizar não adiantou. É daí que nasce a briga na assembleia, não do valor.
O cálculo, na ordem
Seis passos fecham o mês:
- Lançar a leitura atual de cada hidrômetro e subtrair a anterior, gerando o consumo em m³
- Somar os consumos individuais e o da área comum
- Achar a diferença contra o volume da fatura
- Dividir a fatura pelo volume faturado para ter o valor real do m³
- Multiplicar o consumo de cada unidade pelo valor do m³
- Aplicar o critério de rateio sobre a diferença e somar na linha da unidade
O passo 4 é o que quase toda planilha caseira pula, usando um valor fixo por m³ digitado uma vez e nunca mais revisto. Quando a tarifa muda, o rateio inteiro passa a fechar errado e ninguém percebe por meses.
A leitura precisa de data, não só de número
Guardar apenas o consumo do mês destrói qualquer conferência. O que precisa ficar registrado por unidade, em cada leitura:
- Data da leitura e quem leu
- Número cheio do hidrômetro, não o consumo calculado
- Consumo do mês, gerado por fórmula a partir das duas leituras
- Marcação de leitura estimada, quando o medidor não pôde ser lido
- Observação de troca de medidor, com a leitura final do antigo e a inicial do novo
O número cheio é inegociável. Com ele, qualquer contestação de morador se resolve em dois minutos comparando o visor com a coluna. Sem ele, a única resposta possível é pedir que confie na planilha.
A leitura estimada tem regra própria: estimou em um mês, o mês seguinte tem que acertar a conta com a leitura real, senão o erro se acumula na diferença coletiva e vira perda para todo mundo. A troca de medidor pede o mesmo cuidado que se usa no controle de estoque por lote e validade, em que o item novo nunca herda o histórico do antigo.
Quando a unidade não paga
Água individualizada muda a cobrança do inadimplente. Na cota fechada, todo mundo devia o mesmo valor e o rateio era simples. Com medição, a unidade que deve três meses deve três valores diferentes, e o cálculo de juros precisa de cada competência separada.
O controle aqui é o mesmo de qualquer título em aberto, com vencimento, valor e histórico por unidade, do jeito que funciona no controle de contas a receber. O que muda é que o consumo do mês precisa ficar amarrado ao título, porque a defesa mais comum do morador é dizer que aquele consumo não era dele.
Condomínio que perde o histórico de leitura perde também o direito de discutir o valor. É o mesmo custo silencioso do inadimplente que ninguém registrou.
O relatório que a assembleia entende
Uma vez por mês, quatro números resolvem a prestação de contas da água:
- Volume faturado pela concessionária
- Soma medida nas unidades
- Consumo da área comum
- Diferença rateada, em m³ e em reais
Publicar esses quatro números todo mês, sempre no mesmo formato, faz a diferença virar assunto conhecido em vez de suspeita. Quando ela sobe de 6% para 12%, a própria série histórica avisa, e a conversa passa a ser sobre procurar vazamento, não sobre desconfiar do síndico.
Perguntas frequentes
Por que a soma dos hidrômetros nunca bate com a conta da concessionária?
Porque parte da água não passa por medidor de unidade: área comum sem hidrômetro, vazamento na prumada e perda em medidor lento. Some a isso a diferença de janela, já que o condomínio lê no dia 25 e a concessionária fatura de 12 a 11. Num prédio de 48 unidades, uma diferença de 7% sobre 1.240 m³ dá 92 m³, cerca de R$ 938,00 por mês.
Qual o critério correto para dividir a diferença de água?
O que estiver na convenção ou em ata de assembleia. Os três usados são partes iguais, proporcional ao consumo medido e proporcional à fração ideal. Sobre R$ 938,40 divididos entre 48 unidades, uma unidade pequena paga R$ 19,55 no primeiro critério e R$ 6,91 no segundo. Escolha antes de fechar o mês, nunca depois de ver o resultado.
Como calcular o valor do metro cúbico para cobrar do morador?
Divida o valor total da fatura pelo volume faturado no mesmo período. Uma conta de R$ 12.648,00 sobre 1.240 m³ dá R$ 10,20 por m³. Não use o preço da tabela da concessionária, porque a cobrança costuma ser por faixa de consumo e o valor médio do condomínio fica diferente do preço de qualquer faixa isolada.
O que fazer quando o hidrômetro de uma unidade não pode ser lido?
Registre a leitura como estimada, cobre pela média dos últimos três meses e acerte no mês seguinte com a leitura real. A planilha precisa de uma marcação para isso, senão a estimativa vira número definitivo. Duas estimativas seguidas na mesma unidade já pedem visita técnica, porque medidor inacessível costuma esconder medidor parado.
Leia também
- Como ratear custo fixo por percentual de faturamento
- Como controlar contas a receber sem esquecer cobrança
- Inadimplente esquecido: o custo de não ter registro
Comece pela próxima leitura
Não tente reconstruir o histórico dos hidrômetros. Anote a leitura cheia de cada unidade na próxima visita, guarde a data e trate esse número como marco zero. No mês seguinte você já tem o primeiro consumo calculado por fórmula.
Em três meses aparece a média por unidade. Em seis, a série da diferença, que é o número que mostra se o prédio tem vazamento ou só tem morador gastando água.
A gente monta essa planilha com as suas unidades, a sua fração ideal, o critério que a sua convenção manda usar e o relatório mensal pronto para levar à assembleia.
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