O escritório de contabilidade perde mais dinheiro no reajuste que esqueceu de aplicar do que na tabela de preço que cobra. São dois vazamentos silenciosos: o cliente antigo que ficou de fora do índice deste ano, e o serviço fora do escopo que a equipe fez e ninguém faturou.
Nenhum dos dois aparece no extrato. Os dois aparecem quando alguém coloca a carteira inteira em uma tabela, com a data-base de cada contrato e o registro do que foi feito além do combinado.
Se o seu escritório passa de 40 clientes e o reajuste depende de alguém lembrar, a gente monta uma planilha sob medida para a carteira de honorários, com a data-base e o índice de cada contrato na fórmula.
O reajuste que ficou pelo caminho
Um escritório com 84 clientes ativos e honorário médio de R$ 680,00 fatura R$ 57.120,00 por mês. Na virada do ano, o índice aplicado foi 4,8%.
| Situação | Clientes | Honorário no mês | Reajuste aplicado |
|---|---|---|---|
| Reajuste aplicado na data-base | 61 | R$ 41.480,00 | R$ 1.991,04 |
| Ficaram de fora | 23 | R$ 15.640,00 | R$ 0,00 |
Os 23 esquecidos deixaram de gerar R$ 750,72 por mês. No ano, R$ 9.008,64. É o salário de um assistente júnior por dois meses, perdido porque o contrato tinha data-base em abril e ninguém tinha uma lista por mês de aniversário.
O erro raramente é decisão. É que a data-base de cada contrato mora no PDF do contrato, e o PDF mora numa pasta. Enquanto a data-base não virar coluna, ela não vira aviso.
Pior: o reajuste esquecido é acumulativo. O cliente que ficou de fora em dois anos seguidos está pagando um preço de três anos atrás, e a conversa para corrigir agora precisa pedir 10% de uma vez. É a mesma armadilha do controle de contrato recorrente e mensalidade, em que o reajuste adiado sempre custa mais caro do que o reajuste aplicado.
Três formas de organizar o reajuste
| Modelo | Como funciona | O que exige |
|---|---|---|
| Data-base de cada contrato | Cada cliente reajusta no mês do aniversário | Coluna de data-base e aviso 60 dias antes |
| Todos em janeiro | Uma rodada anual para a carteira inteira | Aditivo em contrato novo, com pro rata no primeiro ano |
| Por faixa de movimento | Preço revisto quando o volume de notas muda de faixa | Contagem mensal de documentos por cliente |
O segundo modelo é o mais fácil de operar e o que gera menos esquecimento, porque tem uma data só no ano. O terceiro é o mais justo e o único que resolve o cliente que cresceu, mas só funciona se a contagem de documentos já estiver sendo feita todo mês.
Escritório que quer sair do primeiro modelo faz a migração em uma rodada: reajusta todo mundo em janeiro com pro rata proporcional aos meses desde o último reajuste, e a partir do ano seguinte a carteira inteira anda junto.
O extra que a equipe faz e ninguém fatura
O escopo fechado é o combinado do contrato: fiscal, contábil, pessoal. Tudo que sai disso é serviço extra, e é aqui que o escritório trabalha de graça sem perceber.
Um ano da mesma carteira de 84 clientes:
| Serviço fora do escopo | Preço de tabela | Vezes no ano | Potencial |
|---|---|---|---|
| Abertura de filial | R$ 900,00 | 6 | R$ 5.400,00 |
| Parcelamento de débito | R$ 400,00 | 14 | R$ 5.600,00 |
| Certidão avulsa a pedido | R$ 90,00 | 52 | R$ 4.680,00 |
| Rescisão fora do lote mensal | R$ 180,00 | 38 | R$ 6.840,00 |
| Retificação por documento entregue errado | R$ 350,00 | 11 | R$ 3.850,00 |
| Total | R$ 26.370,00 |
Escritórios que começam a medir isso costumam descobrir que faturaram menos da metade do potencial. Metade de R$ 26.370,00 são R$ 13.185,00 que a equipe produziu e o caixa não viu.
O que resolve não é aumentar a tabela. É a solicitação virar registro na hora em que chega, com cliente, data, tipo e quem executou, e o fechamento do mês varrer esse registro antes de emitir a fatura. Uma linha lançada no dia custa dez segundos. A mesma linha reconstruída no dia 30, de memória, não existe.
O cliente que dá prejuízo
Honorário igual não significa esforço igual. Dois clientes que pagam R$ 680,00 podem consumir horas muito diferentes.
Com custo de hora da equipe em R$ 62,00:
| Cliente | Honorário | Horas no mês | Custo | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| Comércio com 40 notas | R$ 680,00 | 9,0 | R$ 558,00 | R$ 122,00 |
| Comércio com 190 notas | R$ 680,00 | 16,0 | R$ 992,00 | R$ 312,00 negativos |
O segundo cliente consome o lucro de dois clientes bons. E ele costuma ser o mais antigo da casa, aquele que entrou pequeno, cresceu, e continua no preço de quando tinha 40 notas.
Para essa conta existir, o escritório precisa de duas colunas que quase nunca tem: horas apontadas por cliente e volume de documentos por cliente. Sem elas, a margem por cliente é palpite, e o escritório reajusta em cima de quem aceita em vez de em cima de quem custa. O raciocínio é o mesmo do rateio de custo fixo por percentual de faturamento: custo que não é atribuído acaba coberto por quem não deveria pagar.
O que a carteira precisa ter como coluna
Oito campos sustentam o controle inteiro:
- Cliente, CNPJ e regime tributário
- Honorário atual e data do último reajuste
- Data-base e índice contratado
- Escopo contratado, com marcação do que está incluso
- Volume de documentos do mês
- Horas apontadas no mês
- Extras solicitados, com data e valor
- Situação do pagamento
O campo 3 é o que gera o aviso. O campo 7 é o que gera a fatura. O campo 8 fecha o ciclo, porque escritório também tem inadimplente, e o cliente que atrasa três meses de honorário costuma ser o mesmo que pede extra sem pagar. Vale o mesmo alerta do inadimplente esquecido: sem registro por competência, a cobrança perde a data e perde a força.
A conversa do reajuste fica mais fácil com número
Cliente reage melhor a um reajuste que vem com o retrato do ano. Quantos documentos foram processados, quantas guias, quantas admissões e rescisões, quantos extras foram atendidos sem cobrança. Não é argumento de venda, é o extrato do serviço.
Quando o escritório mostra que o volume do cliente subiu 38% em dois anos e o honorário subiu 9%, a conversa deixa de ser sobre índice e passa a ser sobre o que mudou. Esse extrato sai da mesma planilha, sem trabalho extra, desde que o volume esteja sendo registrado mês a mês.
Perguntas frequentes
Como não esquecer o reajuste de honorário de nenhum cliente?
Transforme a data-base em coluna e gere uma lista por mês de aniversário, com aviso 60 dias antes. Numa carteira de 84 clientes com honorário médio de R$ 680,00, deixar 23 contratos de fora de um índice de 4,8% custa R$ 750,72 por mês, ou R$ 9.008,64 no ano. Enquanto a data-base ficar só no contrato em PDF, o esquecimento é questão de tempo.
Quando cobrar serviço extra do cliente de contabilidade?
Sempre que o pedido estiver fora do escopo escrito no contrato, como abertura de filial, parcelamento de débito ou retificação causada por documento entregue errado. O que faz a cobrança acontecer é registrar a solicitação no dia em que ela chega, com cliente, tipo e executor. Uma carteira de 84 clientes pode gerar mais de R$ 26.000,00 por ano em extras.
Como saber se um cliente dá prejuízo ao escritório?
Compare o honorário com as horas apontadas multiplicadas pelo custo da hora. Um cliente de R$ 680,00 que consome 16 horas a R$ 62,00 custa R$ 992,00 e gera R$ 312,00 de prejuízo por mês. Sem apontamento de horas e contagem de documentos por cliente, a margem individual é chute, e o reajuste acaba caindo em quem custa menos.
Vale a pena reajustar todos os clientes em janeiro?
Vale para escritório que perde reajuste por esquecimento, porque concentra a rodada em uma data só. A migração se faz aplicando pro rata proporcional aos meses desde o último reajuste de cada contrato, com aditivo assinado. Contratos novos entram com a primeira correção proporcional, e a partir do ano seguinte a carteira inteira anda junto.
Leia também
- Como controlar contrato recorrente e mensalidade
- Como controlar contas a receber sem esquecer cobrança
- Inadimplente esquecido: o custo de não ter registro
Comece pela lista de datas-base
Abra os contratos e extraia uma coisa só de cada um: a data-base e o índice. Nada mais. Com essas duas colunas ao lado do nome do cliente e do honorário atual, o escritório já sabe quem está atrasado e quanto isso vale por mês.
Depois disso, ligue o registro de extras. Trinta dias de anotação já mostram o padrão, e o primeiro fechamento com extras faturados costuma pagar a organização inteira.
A gente monta essa planilha com a sua carteira, o seu escopo contratado, a sua tabela de extras e o aviso de reajuste por mês de aniversário.
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